palavras geradoras
Oficina da Pedagogia Griô - 16 e 17 de setembro de 2006





O vento é seu maior mensageiro
Corre o mundo inteiro
E vem anunciar
Que a bela Oyá veio relampuê
veio relampuê, veio relampuá...

Eparrei! Yansã comanda os ventos, e a força dos elementos...
E no sopro do vento que faz chover forte nesta cidade saem as palavras, como gotas molhadas da memória daquele dia.

Peço a benção dos que foram os meus companheiros naquela caminhada, pra começar a contar a história dos pedaços que juntamos juntos:
Nos reunimos em torno do Pilão, o mesmo Pilão que nos havia re-unido no ritmo da sua batida, no canto, na dança, na brincadeira... naquela roda já não éramos apenas superficialmente conhecidos, já havíamos caminhado juntos num rito de vivência coletiva, nos tocamos e nos deixamos tocar, entregamos nossos pedaços na roda de contar histórias...e foi ali na roda, em torno do Pilão, espaço do imaginário, terra etérea fertilizada pela experiência de cada um e do grupo, que brotaram estas palavras:

Extemporâneo:
(adj.), do lat.extemporaneu: que é fora do tempo próprio; imtempestivo; inoportuno

Pilão:
(s.m.) Instrumento para pilar (no latim: pilum) Pilar: (v.t.) Esmagar com o pilão. (do latim: tundere, pilo tundere)


Pilo Tundere...tun....tun.....tun.....dere.....


O Pilão é um instrumento de trabalho: amassa, esmaga, quebra e separa os grãos, produzindo o alimento... a sua batida, no entanto, é a memória ancestral de toda a vida que se criou em torno dele: O pilão como instrumento musical, mágico e extemporâneo , de encantamento da realidade; um símbolo da tradição, que significa algo muito mais além da sua função - trabalho.

O Pilão e o som de sua batida ritmada e compassada, que remete à história e cultura do povo negro: uma trajetória milenar de luta e resistência, de alegria e celebração. O pilão simboliza a utopia, ou a nostalgia, de um mundo onde celebração e trabalho andam juntos; onde o homem não é o lobo do homem; onde quem trabalha tem o direito ao alimento e a celebrar o prazer de se saciar da fome de grãos, de pão e de justiça. O Pilão,que esmaga e destrói para construir o alimento do corpo, nos mistura e religa para alimentar o espírito, formando a sólida argamassa da memória.

O Pilão, e no centro da roda: ritmo, sincronicidade, pressão, ruptura. No jogo das palavras, me veio uma nova combinação: “Tradição de Ruptura”, termo que me aproprio, colhido no jardim de um mexicano, o mestre Octavio Paz. É um termo que pode significar muitas coisas, mas neste caso pode bem representar nossa experiência com o Pilão.


Sincronicidade desta experiência que nos uniu: encontro afetivo que extrapolou a razão pura e jogou nos caminhos do inconsciente: ritual de experiência, de corpo presente, de narração. A vivência de um momento, único, que a inspiração dos ventos me permitiu transformar em palavras...

Divido elas, inteiras ou aos pedaços, com todos vocês, no prazer da gula e do desejo de novos encontros como aquele...


Rio, o de Janeiro, inverno/primavera de 2006,

Alexandre Santini
-
Ponto de Cultura Tá na Rua - RJ
(sobre a vivência da Pedagogia Griô e as palavras geradoras)


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