Griôs, Mestres e Griô Aprendiz

Quem são os Griôs?
Quem é o o Griô Aprendiz?

Quem são os Mestres?





“O griô tá vindo lá de meus avós, de meus tios, trazendo aquela lembrança nossa que nós tínhamos antigamente, que estava ficando esquecida. Eu tenho muita satisfação por essa lembrança que eu tenho quando chego junto à sociedade. Enquanto vida eu tiver eu estarei aqui”, Seu Aurino, sanfoneiro, pescador e mestre da marujada, comunidade do Remanso, Lençóis, Bahia.

“Uma vez que a sociedade africana está fundamentalmente baseada no diálogo entre os indivíduos e na comunicação entre comunidades ou grupos étnicos, os griôs são os agentes ativos e naturais nessas conversações”
(HAMPÂTÉ BÂ, 1982, p. 204).

1.Quem são os Griôs?

Para compreender o significado de griô
, é preciso dialogar sobre uma “sociedade baseada no diálogo entre os indivíduos e na comunicação entre as comunidades ou grupos étnicos” - a tradição oral - diferenciando inclusive o conceito de griô e de mestre. Conversar ainda sobre o significado da palavra e do diálogo para as sociedades do noroeste da África e para diversos grupos da cultura afrodescendente brasileira.

Todavia esse diálogo exige uma pesquisa específica e uma vivência afetiva e cultural que transpõe o papel de um antropólogo ou de um educador, historiador ou educando.
A tradição oral compromete completamente o mundo simbólico da história de vida de quem a estuda, porque só é compreensível por meio da vivência de cada palavra que ouve e de rituais iniciatórios.

“Os gestos do tecelão, ao acionar o tear, representam o ato da criação, e as palavras que lhe acompanham os gestos são o próprio canto da vida”
(HAMPÂTÉ BÂ, 1982, p. 197).



A palavra griot é francesa, griot no masculino e griote no feminino. Griô é um jeito brasileiro proposto pelo Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô que optou pelo trabalho com os/as griôs reis, os/as que são iniciados/as pelos mestres.

Segundo Hampâté Bâ, nas línguas e dialetos da região sul do Saara, noroeste da África, na tradição oral dos grupos étnicos Bambaras e Fulas na região do Mali, de onde originam os griôs, eles têm diversos nomes e funções sociais, como por exemplo, em Bambara: Dielis, que significa sangue, uma analogia com o que circula no organismo vivo. Eles são genealogistas, contadores de histórias, músicos/poetas populares, importantes agentes da cultura. Chegam a assumir a função de noticiadores, mediadores e diplomatas. Às vezes são contratados pelos nobres para pesquisar e contar a história e genealogia de sua família, seus heróis e glórias. Os griôs podem enfeitar ou alegrar os eventos de uma comunidade como os palhaços. Na tradição oral, a palavra tem um poder e um significado divino, tem um compromisso com a verdade e com os ancestrais. Ter o poder de brincar e enfeitar as palavras é algo legitimado apenas por alguns tipos de griô.

Segundo Thomas Hale (1998), os griôs são responsáveis por uma sabedoria e uma arte verbal presentes nos rituais da vida social: nascimento, iniciação, aliança matrimonial, cerimônia de casamento e funerais. Os griôs têm uma imagem social e política, além de um lugar econômico determinante no funcionamento das sociedades do noroeste da África.

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A seguir propomos o perfil do Velho Griô de Lençóis, como um griô aprendiz que possui um papel político fundamental para a mediação do diálogo entre o ensino formal e informal. Propomos ainda o perfil dos griôs e dos mestres de tradição oral brasileiros.


Perfil do Griô de Tradição Oral

• Líder de grupos culturais e associações locais que trabalham com as tradições orais e/ou a animação popular: congadeiro(a), fulião de reis e bois, cantador(a) de quadrilha, marujo(a), capoeirista, jongueiros;
• Transmite com facilidade a sabedoria de tradição oral por meio da fala e da palavra, como uma arte ou magia: repentistas, contador(a) de história, músico (cantador(a), compositor(a)), trovador(a) ou menestrel, poetas em geral que percorrem o País ou estão ligados a uma família/comunidade;
• História de vida de tradição oral;
• Músico, instrumentista e animador/a de festas;
• Que se identifique com a figura do caminhante, do viajante e contador/a de histórias;
• Idade mínima de 50 anos.


Perfil do Griô Aprendiz

• Experiência em pesquisa e mobilização social, diálogo e mediação política;
• Líder de grupos culturais e/ou associações locais que trabalham com as tradições orais;
• Transmite com facilidade a sabedoria de tradição oral por meio da fala e da palavra, como uma arte ou magia;
• Autodidata em história, antropologia, artes cênicas e/ou jornalismo;
• Educador(a) comunitário(a) iniciado(a) em facilitação de vivências em grupo;
• Participante de rituais e/ou atividades de iniciação com um mestre de tradição oral de sua escolha.


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2.Quem são os mestres?

Hampâté Bâ define os mestres como doutores em ofícios diversos e grandes iniciadores das ciências da vida. São os Domas para os Bambaras, ou os Silatiguis para os Fulas. Quando um griô quer ser iniciado por um Doma, pode ser convidado a ficar anos em silêncio, olhando um ofício e ouvindo as verdadeiras histórias, até criar a primeira pergunta ou poder transmitir seus conhecimentos. Os griôs iniciados pelos domas são griôs reis ou griôs Domas. Eles pedem permissão e ajuda aos seus ancestrais quando falam, para que nem o tom da voz crie dúvidas sobre a verdadeira história.

Na busca de compreensão e atualização dos conceitos de griôs e mestres, o Velho Griô de Lençóis registrou a síntese de mestre Dunga, curador da comunidade: “O mestre é a raiz, o griô é a sua rama”.


Perfil dos mestres

• Reconhecidos(as) nas comunidades como líderes espirituais, com a sabedoria da cura ou de iniciação para a vida, buscados(as) por pessoas de diversas regiões (por exemplo: curador, parteira e rezadeira, pajé, pai e mãe-de-santo, mestre de capoeira etc.);
• Conhecedores/as e fazedores/as de conhecimentos, iniciados ou iniciadores/as de um ramo tradicional em artes e ofícios diversos relacionados às ciências da vida (por exemplo: tecelão, ferreiro, sapateiro, pescador, caçador, rendeira, construtor de instrumentos musicais ou brinquedos, baiana de acarajé etc.);
• História de vida de tradição oral;
• Que se identifique com a figura do/a sábio/a e do/a mestre;
• Idade mínima de 60 anos.


Estes conceitos foram sistematizados a partir dos rituais de vínculo e aprendizagem vivenciados em Lençóis e em diversos cantos do País. Eles servirão de base para a proposição de políticas educativas e culturais de tradição oral. Nos próximos capítulos conheceremos um exemplo de processo de iniciação de um Griô Aprendiz, além da pedagogia griô, que integra princípios e práticas da tradição oral.



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Textos adaptados do livro "Pedogogia Griô: A Reinvenção da roda da vida", de Líllian Pacheco. Sistematização de vivências, invenções e pesquisas compartilhadas do Ponto de Cultura Grãos de Luz e Griô.



Saiba mais:

Conheça a Ação Griô
Lançamento do edital no Encontro Sul-Americano de Culturas Populares
Lançamento do livro Pedagogia Griô: A Reinvenção da Roda da Vida
Apresentação do livro, por Célio Turino




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