Apresentação do livro Pedagogia Griô: a reinvenção da Roda da Vida Por Célio Turino Em julho de 2004, o Ministério da Cultura lançou o Programa Cultura Viva. Recebemos 840 projetos já no primeiro edital e dentre eles estava o Grãos de Luz e Griô. Foi uma grata satisfação receber este projeto, pois quando definimos as quatro ações do Programa Cultura Viva (Ponto de Cultura, Cultura Digital, Agente Cultura Viva e Escola Viva), observamos que faltava uma integração dialética entre tradição, memória e ruptura. Tradição enquanto ponto de partida, memória enquanto reinterpretação do passado e ruptura enquanto invenção do futuro. Assim, incluímos uma quinta ação: o Griô. O projeto Grãos de Luz e Griô apresentou uma proposta que partia de um processo acumulado de construção de um conhecimento; de envolvimento comunitário na Chapada Diamantina; de discussões sólidas sobre como associar a cultura tradicional com o processo educacional; de valorização da cultura no âmbito local, indo mais além, abrindo novos horizontes tanto para os mais jovens quanto para os mais velhos. Por isso mesmo esteve entre os primeiros selecionados. Mais do que isto, a nossa idéia ao selecionarmos vários Pontos de Cultura em todo o Brasil, em favelas e periferias de grandes cidades, pequenos municípios, quilombos, comunidades rurais e indígenas, era captar o que de mais significativo havia em cada um deles para contribuir para a rede como um todo. Não limitar as atividades do Ponto de Cultura apenas à sua comunidade, mas apresentar soluções e políticas criativas e inovadoras para a rede, para todas as experiências comunitárias que tratam a cultura de uma forma muito mais ampla. Não limitar às artes ou às expressões simbólicas, mas tratar a cultura também enquanto identidade, cidadania e economia. O Grãos de Luz e Griô tem esta visão abrangente da cultura e por isso passamos a observar a experiência específica deste Projeto de Lençóis em relação à cultura tradicional e ao trabalho com os Griôs e Mestres vinculados ao sistema de educação da criança, do adolescente e do jovem. De tanto observar e de tanto perceber a relevância desta experiência nós transformamos a idéia do Grãos de Luz e Griô numa ação nacional do Programa Cultura Viva. Mais tarde, vivenciando atividades do Grãos de Luz e Griô, tive a oportunidade de dialogar com participantes de todas as idades: crianças, educadores, o Velho Griô e Griôs de tradição oral. Esse encontro me fez refletir sobre a importância da dimensão sagrada da vida e da lógica de convivência econômica baseada na partilha, dois aspectos tão preservados pelas culturas tradicionais brasileiras. Na sociedade contemporânea nós vivemos um processo de transformação da vida, dos desejos, das horas e até da própria alma, em mercadoria. Isto resulta na alienação que as populações vivem em relação às possibilidades de conquista de sua autonomia e emancipação. Quando o candomblé preserva sua fonte de cultura e convivência como espaço sagrado, ele está preservando a vida. Quando um reisado sobrevive porque todos da comunidade se dão, oferecem algo, nem que seja um prato de comida para os caminhantes, ele está conservando uma cultura vital para a construção de um país mais justo e solidário, rompendo com o ciclo de alienação/vulgarização da vida. O contrário da sacralização da vida e da convivência econômica da partilha é a banalização da vida, transformada em mercadoria, absolutamente desrespeitada, a exemplo da violência nos grandes centros urbanos. Neste espaço de convivência, há momentos em que a vida não vale mais nada. No entanto, manter apenas a louvação da tradição não resolve. Afinal, como demonstrou Eric Hobsbawm, as tradições são inventadas e construídas historicamente incorporando preconceitos e ideologias. É neste processo que a memória assume um papel vital, de reelaboração e reinterpretação das tradições. Mas isso deve acontecer sem que haja uma hierarquização, imposição ou uniformização da cultura. Por isso a importância do diálogo intergeracional e multissetorial proposto pelo Grãos de Luz e Griô em sua Roda da Vida, nas Oficinas e na caminhada do Velho Griô. Célio Turino é Mestre em história pelaUnicamp e Secretário de Programas e Projetos Culturais no Ministério da Cultura do Brasil
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